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Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2026
Muitas vidas nos trilhos

Amara Hartmann

Muitas vidas nos trilhos

Como Paranapiacaba está conectada a minha família?

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“Família, eu to organizando uma ida a Paranapiacaba pra gente conhecer o tanque do Gustavo. Já falei com um funcionário da Prefeitura e ele vai acompanhar a gente pra conhecer o tanque... Fala aqui no grupo quem quer ir pra eu passar o número de pessoas.”

Tudo começou com essa mensagem do meu padrinho no grupo de WhatsApp da família. O Gustavo é o meu tataravô, Gustavo Hartmann, o primeiro Hartmann que veio da Alemanha pro Brasil. Ele é pai do meu bisavô, Juvenal Hartmann, que dá nome a um Boulevard no centro da cidade de Francisco Morato. Ele se mudou pra Morato porque o meu avô, Heitor Hartmann, tinha problemas respiratórios e precisava ficar longe da poluição do centro de São Paulo. Por isso vieram para antiga Belém, estação do trem que vai em direção a Campinas, onde hoje é a cidade de Francisco Morato.

Algumas semanas depois recebemos outra mensagem do meu padrinho.

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“O funcionário da prefeitura não vai mais. Aí a gente não tem como ir no tanque, porque é só com guia... Vocês querem ir mesmo assim?”

Decidimos ir. A viagem dura 2 horas e, ao invés de cruzar a cidade de São Paulo seguindo a linha do trem – o que é meio lógico – a gente pega o rodoanel e contorna todo o centro. Depois, cruzamos a linha de trem e pegamos 15 minutos de uma estrada de terra até chegar a Vila de Paranapiacaba.

Não precisa andar por muitas ruas pra perceber que a Vila é um encanto – mesmo sem a famosa neblina que fez os fãs de Harry Potter se apaixonarem pelo lugar. As casinhas, as ruas de paralelepípedos, a linha do trem, a estação... Paramos na primeira lanchonete pra comprar uma água e o papo já fluiu com um morador.

- Nascido e criado – o Claudio me disse, com o orgulho transbordando no olhar. – Meu pai trabalhava na ferrovia.

Naquele momento eu não sabia, mas ouviria aquela frase várias vezes naquele dia. Meu pai começou a falar que estávamos ali por causa do meu tataravô que construiu um tanque de água e foi logo interrompido pelo Claudio, que disse:

- O Gustavo? – Ficamos chocados ao perceber que ele já conhecia. Concordamos que sim, eram informações sobre o Gustavo que estávamos procurando e ele continuou. – Ah, sim, todo mundo aqui conhece. Dizem que ele ficou tonto quando foi levantar e foi sugado pela correnteza e morreu lá. Por isso que deram o nome dele, porque ele morreu lá. É perigoso... Por isso não deixam subir sozinho assim. Com certeza meus pais trabalharam com ele, porque todo mundo que vem trabalhar aqui na vila na ferrovia se conhece. Mas essa história do Gustavo todo mundo sabe.

- Ele é tipo uma lenda local? – Eu perguntei.

- Sim, ele é uma lenda.

O turismo das histórias de terror e também das histórias exotéricas é uma coisa muito forte na Vila, eu fui descobrindo enquanto andávamos. Além, claro, de tudo que envolve a ferrovia – como, por exemplo, o Expresso Turístico da CPTM que faz a viagem de trem até lá.

Depois de dar uma volta na cidade fomos até a casa do engenheiro, que é o principal museu sobre a história do lugar. Ao ouvir o guia Alex falando sobre a história do lugar, eu entendi uma dúvida que vinha me rondando a um certo tempo – o que é a cultura do lugar de onde eu vim?

Alex contou que a Vila era um acampamento, logo na subida da Serra de Cubatão – um lugar estratégico para que os funiculares pudessem trabalhar e trazer os trens pra cima. Que a SPR – São Paulo Railway – foi patrocinada pelo Barão de Mauá e que o foco era exportar o café do interior do estado. Que os trabalhadores viieram da Inglaterra em sua maioria e que as construções vinham prontas de lá (como a Estação da Luz) e também as casas dos moradores de Paranapiacaba, que possuem arquitetura victoriana. As casas eram distribuídas de acordo com a hierarquia do funcionário da SPR e no todo de uma colina, como um panóptico, ficava a casa do engenheiro – naquela época, em 1870-1900, era o Frederich Meinz.

Depois do museu, a antiga casa do Engenheiro Meinz, demos mais uma volta na cidade. Conhecemos mais guias turísticos e trabalhadores e percebemos que o Gustavo Hartmann era uma das diversas lendas que fazem parte do local. O que a gente tinha ouvido era que o Gustavo estava bêbado quando caiu no tanque.

- Vocês são da família do Gustavo? – Os olhos do guia turístico Jeferson brilharam quando nos apresentamos. – Que legal! Foi o Gustavo que criou todo o sistema de abastecimento de água da Vila – e por consequência dos trens também! Ele era engenheiro também, veio da Alemanha... A caixa F17 leva o nome dele porque foi lá que ele morreu. Aqui ó: “Caixa do Gustavo” – Ele aponta pra uma colagem num pequeno museu sobre a Fauna de Paranapiacaba. - É a única que tem nome, as outras são só números.

Almoçamos e eu comi um lanche com Cambuci, que aliás, é uma fruta que domina todos os cantos culinários da cidade. De sobremesa experimentamos o sorvete de rolinho do Eduardo, que foi um dos maiores presentes do dia.

Eduardo falava de sorvete com amor como só quem ama o que faz por fazer. E é tão bonito isso, né? Ver gente fazendo e falando sobre o que ama! Ele fez um sorvete de Cambuci sem açúcar pro meu pai e inventou os sabores mais diferentes pra contemplar todo mundo.

Ele disse que é filho de ferroviários e que, quando criança, os pais não conseguiam pagar por sorvetes. Que nas festas que a empresa pagava nos clubes tinha sorvete de graça e que ele se acabava de comer sorvete e que foi esse desejo infantil que fez com que ele se apaixonasse e quisesse trabalhar com isso. Ele comprou os equipamentos de fora, testou diversas receitas e foi se especializando em criar um sorvete que cativasse todos os turistas. Amora, Cambuci, leite, amarena, mojito... Tudo. Disse que tem gente que vem só pelo sorvete.

Acabamos falando sobre o motivo da nossa viagem e ele completou, assim como o Cláudio:

- Ah, o Gustavo! Do tanque do Gustavo! Conheço! Já fui muito lá quando criança... Só pode ir com guia porque, além de ter o perigo de se perder, as pessoas podem querer nadar e é perigoso.

- Pois é, igual o Gustavo que morreu lá, né?

- Exatamente.

Ele disse que participou do seriado “Vale dos Esquecidos” que se passa na Vila e eu fiquei pensando o tempo todo como seria legal assistir um seriado sobre aquele lugar. Ou ler um livro. Ou morar um tempo em meados de 1900. Só um tempo, pra ver como eram aquelas vidas nos trilhos.

O Alex, do museu, disse que por um tempo Paranapiacaba foi conhecida como a Vila dos Mutilados, por conta dos muitos funcionários que se machucavam quando as cordas dos trens estouravam. É tanta história.

A tarde já estava chegando ao fim quando uma das personagens principais da vila resolveu aparecer: a neblina. O ar denso, úmido, acompanhava a gente enquanto íamos pro carro. Voltar pra lá era um consenso, precisávamos fazer a trilha de 40 minutos pra conhecer o tanque e ver se tem o nome dele cravado em algum lugar, alguma pista de quem foi aquele homem que une todos nós em sobrenome e DNA, aquela lenda local, que deve fazer parte do tour do terror da cidade.

O espírito dele ainda vaga pelo tanque?

A resposta provavelmente é não. Meu avô, durante suas pesquisas, encontrou o atestado de óbito de Gustavo Hartmann e lá consta que ele morreu de um ataque cardíaco.

Em Mogi das Cruzes.

Desculpa estragar o final da crônica com a informação mais chata que poderia existir, mas é isso que está documentado. Parada cardíaca em Mogi das Cruzes.

Talvez esse seja o sinal pra gente parar de procurar, ou até mesmo se convencer de que é isso, que a vida é sem graça mesmo e acabou. Mas a gente vai voltar. Fazer a trilha. Fazer o tour do terror. E continuar seguindo a linha, que como a São Paulo Railway que corta a capital cruzando o coração do estado como uma flecha, pra ver se conseguimos contar a história dessas pessoas, dessas cidades, dessa cultura e desse país.

 

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Amara Hartmann

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Amara Hartmann

Atriz, autora, produtora cultural cofundadora da Romã Atômica e apresentadora do Besouro Literário.

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