No dia 4 de janeiro de 2026, a Praia Brava, em Florianópolis (SC), tornou-se o cenário de
um crime que expôs a face mais cruel da nossa sociedade. O cão comunitário conhecido
como Orelha, que vivia há cerca de dez anos na região sendo cuidado por moradores e
comerciantes, foi brutalmente agredido por um grupo de quatro adolescentes. Orelha era
um animal sem raça definida, dócil e integrado à rotina local, mas sua natureza pacífica não
foi suficiente para deter a violência.
Segundo o inquérito da Polícia Civil, baseado em imagens de câmeras de segurança e
depoimentos, o animal sofreu ataques com objetos contundentes que causaram lesões
graves na cabeça e múltiplos traumas pelo corpo. Encontrado em estado crítico, Orelha foi
levado a uma clínica, mas a gravidade dos danos cerebrais e físicos levou à necessidade
de eutanásia no dia 5 de janeiro. O caso gerou uma onda de protestos nacionais sob o lema
“Justiça por Orelha”, unindo capitais brasileiras na exigência por punição e mudanças na
legislação.
A investigação concluiu que a agressão foi um ato de violência física prolongada. Enquanto
um dos adolescentes teve a internação solicitada com base no Estatuto da Criança e do
Adolescente, três adultos foram indiciados por coagir testemunhas, revelando uma rede de
proteção ao redor dos agressores. O episódio reacendeu o debate sobre a Lei Sansão (Lei
nº 14.064/2020), que embora preveja reclusão de dois a cinco anos para maus-tratos contra
cães e gatos, ainda enfrenta barreiras na aplicação prática, especialmente quando os
autores são menores de idade.
Para entender o assassinato do Cão Orelha, é preciso olhar para as estatísticas que
mostram que ele não é um caso isolado. O Brasil vive um cenário de crueldade estrutural.
Em 2025, o Conselho Nacional de Justiça registrou um recorde de quase 5 mil processos
por maus-tratos, uma média de 13 casos por dia. Esses números são apenas a ponta do
iceberg, pois a subnotificação é imensa. Estimativas apontam que existam 30 milhões de
animais abandonados no país, vivendo em uma vulnerabilidade permanente que convida à
agressão.
Sociologicamente, essa violência é sustentada pelo antropocentrismo, a ideia de que o ser
humano está no topo de uma hierarquia absoluta e que todas as outras formas de vida são
descartáveis ou inferiores. Essa construção cultural permite que a agressão contra animais
seja naturalizada. Quando uma vida é definida como "menos valiosa", a violência contra ela
deixa de ser percebida como um crime grave e passa a ser vista como um exercício de
poder sem riscos, praticado justamente pela certeza da impunidade.
Essa lógica de dominação não habita apenas os grandes crimes noticiados; ela se
manifesta diariamente nas calçadas e nos portões de casa. Dias atrás, minhas cachorras,
que são extremamente dóceis e nunca atacaram ninguém, fugiram por poucos minutos
enquanto eu buscava uma encomenda. Ao retornar para o meu próprio portão, encontrei um
homem gritando e ameaçando bater nelas. Elas não fizeram nada; apenas latiram para
avisar que haviam voltado. Ainda assim, ele sentiu que tinha o "direito" de agredi-las.
Essa não foi uma situação única. Essa escolha passa longe de ser apenas por medo,
porque são animais dóceis. É a decisão deliberada de descarregar ódio e frustração em
quem não pode reagir. Mas o medo do lado de quem ama esses animais, se torna ainda
maior quando pensamos em quem carrega estigmas, como as gatas pretas, que se tornam
alvos preferenciais de torturas gratuitas, apenas por uma superstição sem sentido.

A crueldade humana é racional e repetida. Diferente de qualquer outro animal, o homem
fere por prazer, por capricho e pela sensação de controle. O caso do Cão Orelha e as
agressões que vemos por aí diariamente Brasil afora provam que a nossa "inteligência" tem
sido usada como ferramenta de destruição. Enquanto a sociedade continuar tratando o
sofrimento animal como algo menor, continuaremos sendo uma espécie moralmente falida,
que usa a força para calar a pureza de quem só oferece lealdade.
Se você presenciar qualquer ato de violência ou negligência contra animais, não se cale. A
omissão também permite que a crueldade continue. No Brasil, você pode denunciar
anonimamente pelo Disque Denúncia (181) ou diretamente pelo portal da Delegacia
Eletrônica de Proteção Animal (DEPA) de seu estado. Em situações de flagrante ou
emergência, acione imediatamente a Polícia Militar pelo número 190. Denunciar é o único
caminho para transformar a indignação em justiça e garantir que crimes como o do Cão
Orelha não fiquem impunes. Afinal, os animais são a expressão mais pura de amor e
lealdade neste mundo; eles não conhecem o ódio e merecem que sejamos a voz que os
protege.
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