Nesta semana, terminei o livro “A crise da Narração”, do filósofo mais pop da atualidade, Byung Chul-Han. Ele ficou famoso pela publicação de “Sociedade do cansaço”, obra em que discute o mal-estar presente na sociedade contemporânea, mas seu pensamento filosófico é muito mais vasto. Uma de suas contribuições, por exemplo, é a discussão do lugar da narrativa no nosso mundo, que está cada vez mais digital e hiperconectado.
O autor aponta que as redes sociais nos geram uma sensação de conexão, mas o que elas têm feito, de fato, é nos afastar cada vez mais. Isso ocorre porque as redes sociais são performance, postamos apenas aquilo que é bonito, agradável, mas não o que é real. Há um excesso de informações, fotos, vídeos, stories, que enaltecem apenas o Eu e nos afastam da comunidade. Vemos isso, por exemplo, com os grandes influencers digitais, que exibem suas vidas luxuosas e caríssimas na Internet, a fim de se destacarem num país onde o salário médio, segundo o IBGE, é de R$ 3.378,00.
Para Han, a narrativa é diametralmente oposta ao papel que as redes sociais exercem hoje. Elas sempre foram essenciais para a coesão social e, em especial, familiar. Era comum, como no quadro que é capa desse texto, que as pessoas se reunissem para ouvir as histórias das pessoas mais velhas – fossem elas memórias ou criações fabulosas. A verdade é que isso tem se perdido num mundo onde passamos nosso tempo livre na frente das telas. O autor ainda destaca que em escala nacional, a narrativa gera identidade: os mitos que pertencem ao folclore, como no Brasil, eram passados pela tradição oral, de pai para filho e era algo comum entre aqueles pertencentes à mesma geração. Infelizmente, hoje essa cultura está desaparecendo.
O filósofo ainda se apropria das contribuições de Walter Benjamin, autor alemão do século XIX, para os estudos literários. Seu texto, “O narrador”, defende que o narrador morreu após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) porque os homens que voltavam da guerra – quando voltavam – ficaram calados devido ao estresse pós-traumático da carnificina desse conflito. O fantástico, que é o ponto de partida na narrativa, foi morto com o horror da luta bélica – a mais sanguinária até então. Esse processo tem se intensificado atualmente com a disseminação em massa da Informação, que dispensa narrativa. Enfim, estamos cada vez mais conectados e simultaneamente mais separados.