Setembro é o mês nacional de conscientização sobre o câncer infantojuvenil no Brasil, marcado pelo laço dourado e por campanhas de rua, iluminação de prédios públicos e ações em escolas e hospitais em todo o país. Neste ano, o Ministério da Saúde escolheu um tema para a campanha que soa quase como uma frase de efeito, mas não é: "o câncer infantojuvenil tem desafios, mas também tem cura, fique atento aos sinais." A formulação foi debatida a ponto de virar nota técnica oficial, publicada em julho, assinada pela coordenadora da Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer Infanto-Juvenil. Não é retórica de campanha. É o resumo de um problema de gestão que o Brasil ainda não resolveu.
Os números são conhecidos por quem acompanha a área, mas vale repeti-los porque ainda não mudaram o suficiente. O país deve registrar 7.560 novos casos de câncer por ano em crianças e adolescentes de 0 a 19 anos entre 2026 e 2028, segundo a Estimativa do Instituto Nacional de Câncer. Entre 2014 e 2024, foram quase 28.600 óbitos nessa faixa etária só por câncer, que segue sendo a primeira causa de morte por doença entre 1 e 19 anos no país. A boa notícia, e ela existe, é que a mortalidade vem caindo: 1,24% ao ano, em média, na última década. A má notícia é que essa queda não chega igual a todo lugar.
Os dados mais recentes do projeto OncoBrasil, do próprio INCA, mostram uma taxa média nacional de cura em torno de 64%. No Sul e no Sudeste, ela já se aproxima de 75% e 70%. No Norte, não passa de 50%. Não é biologia regional. É rede: quantos centros de referência em oncologia pediátrica existem em cada estado, quanto tempo leva entre a suspeita clínica e o encaminhamento, quantos exames moleculares e vagas reguladas cada sistema local consegue oferecer. "O CEP continua sendo um fator determinante para a sobrevivência", resume o oncopediatra Sidnei Epelman, fundador da TUCCA e diretor de oncologia pediátrica do Santa Marcelina. É uma frase dura vindo de quem trata essas crianças todos os dias, e ela deveria pesar mais no debate público do que pesa.
Há um segundo dado, menos falado, que muda a forma de pensar a solução. Diferente da maior parte dos cânceres em adultos, o câncer infantojuvenil não tem, na grande maioria dos casos, relação com hábitos de vida ou exposição ambiental. A origem é majoritariamente genética, e não existe rastreamento populacional eficaz para a maioria dos tipos, como existe para o câncer de mama ou de colo de útero em adultos. Isso significa que a prevenção primária, no sentido clássico, praticamente não se aplica aqui. A única alavanca real que a saúde pública tem para aumentar a sobrevida é reduzir o tempo entre o primeiro sintoma e o início do tratamento. Toda a política, então, tem que ser desenhada em torno de um único gargalo: a demora.
E esse gargalo tem um motivo bem concreto. Os sinais de alerta do câncer infantil, como febre persistente, manchas roxas sem explicação, dor óssea noturna, dores de cabeça associadas a vômitos, se parecem demais com os de doenças banais da infância. A oncologista pediátrica Maristella Bergamo, da Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica, chama atenção para um detalhe que explica boa parte do atraso: como a doença é rara, um pediatra pode passar a carreira inteira sem atender um único caso, e por isso a suspeita clínica nem sempre vem rápido. Não é falta de competência. É estatística jogando contra o diagnóstico precoce.
Diante disso, a resposta óbvia é reforçar a atenção básica, e ela é necessária. Mas seria um erro parar por aí. Uma criança passa, em média, mais horas da semana na escola do que em qualquer consultório, e é lá, muitas vezes, que uma mudança de comportamento, uma queda de rendimento sem explicação, um cansaço que não passa, aparece primeiro para um adulto de fora da família. O Instituto Ronald McDonald já leva essa lógica a sério: um dos quatro programas da organização existe justamente para capacitar profissionais de saúde e, ao mesmo tempo, sensibilizar professores da educação básica a reconhecer sinais de alerta e saber para onde encaminhar. Não é filantropia decorativa. É engenharia de detecção precoce.
O que chama atenção é que o próprio Ministério da Saúde chegou à mesma conclusão neste ano. Entre as mensagens-chave recomendadas para o Setembro Dourado 2026 está, de forma explícita, o reconhecimento de que famílias, escolas e profissionais de saúde têm papel importante na identificação dos sinais de alerta. É uma mudança de tom que merece ser registrada: a rede de vigilância deixou de ser pensada só como um problema do sistema de saúde e passou a incluir, formalmente, quem convive com a criança fora do hospital.
Fica, então, o desenho da política que falta consolidar. Rede oncológica pediátrica menos fragmentada entre estados, com vagas reguladas em hospitais habilitados. Atenção básica preparada para desconfiar cedo, mesmo quando o caso é raro na experiência de quem atende. E escolas incorporadas, de fato, como ponto de observação e encaminhamento, não como coadjuvantes de uma campanha de setembro. Nenhuma dessas três frentes substitui a outra. Juntas, são a diferença entre uma criança que chega ao tratamento em estágio inicial e uma que chega tarde demais, e essa diferença, hoje, ainda depende demais do lugar onde ela nasceu.
Fontes:
- Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 19/2026-COCANI/CGCAN/DECAN/SAES/MS, "Lançamento do tema norteador do Setembro Dourado 2026", julho de 2026.
- Ministério da Saúde/COCANI, apresentação "Setembro Dourado 2026: Câncer Infantojuvenil", Audiência Pública da Comissão de Assuntos Sociais do Senado Federal, com dados do SVSA/MS 2026.
- Medicina S/A, "No Brasil, o CEP ainda define as chances de cura do câncer infantojuvenil", 08/04/2026, com dados do INCA (Projeto OncoBrasil) e declarações do oncopediatra Sidnei Epelman (TUCCA/Santa Marcelina Saúde).
- CNN Brasil, "Câncer infantil: diagnóstico tardio e acesso a tratamento são desafios", 04/02/2025, com declarações da oncologista pediátrica Maristella Bergamo (SOBOPE).
- Instituto Ronald McDonald, "Diagnóstico Precoce do Câncer Infantojuvenil: Guia Rápido para Profissionais de Saúde", 2024.
- Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 19/2026-COCANI, mensagens-chave recomendadas para o Setembro Dourado 2026.
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