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Sabado, 18 de Abril de 2026
Da série: Coisas que eu quero dizer, mas acabo escrevendo.

Lua Souza

Da série: Coisas que eu quero dizer, mas acabo escrevendo.

Só para constar: eu detesto a ditadura do café sem açúcar.

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Pronto, decidi! Vou criar uma série de textos com essa temática, para ver se assim desentalo algumas meias verdades. Vai começar mais ou menos assim, com colunas de protesto- nada muito diferente do que já faço. De causo em causo nasce um novo livro. Maria Ribeiro, esse título não é plágio, viu? É inspiração.

Outro dia, decidi largar o açúcar. Isso mesmo. Bati no peito e anunciei com firmeza: "A partir de agora, é vida saudável!" Fui ovacionada pelas paredes da cozinha — ou talvez fosse só o eco debochado da lata de biscoitos. Sabe aquele meme da pessoa que está tentando largar algum vício: "oi, eu sou fulano de tal e estou a tantos dias sem beber coca cola?" Tipo isso.

Na primeira manhã sem açúcar, o café preto parecia uma afronta pessoal. Engoli com dignidade e um leve soluço de arrependimento. À tarde, recusei o bombom oferecido por uma aluna. Ela me olhou como se eu tivesse recusado oxigênio. "Você tá bem?", perguntou, preocupada. "Só em desintoxicação", respondi com um sorriso trêmulo. No terceiro dia, sonhei que nadava numa piscina de creme de lá creme. Acordei com a boca doce e a consciência amarga. Abri a geladeira como quem procura respostas. Havia uma maçã lá dentro- a fruta mais sem graça de todas. Ela sorriu para mim, irônica.

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Resisti bravamente... até o quinto dia.

 

Foi quando, ao chegar do trabalho, cansada e numa mistura de abstinência com anemia, ouvi o chamado. Um sussurro vindo da rua: "Tem torta de limão fresquinha... com merengue." Na minha rua nunca passa nem o cara do pão, como assim alguém vendendo torta? Subi as escadas rapidamente como se não tivesse acabado de desce-lá. O moço já estava na esquina, dobrando a rua. Respirei aliviada e fui tomar meu banho.  Não, eu não cheguei ao sexto dia. Falhei miseravelmente após a minha vizinha -que não sabia do meu propósito- chegar ao meu portão com um pote cheio de arroz doce.

Aí você já sabe a resenha...doce ilusão a minha. Era uma vez qualquer promessa.

 E só para constar, eu abomino qualquer tipo de ditadura. Atualmente detesto a ditadura do café sem açúcar. É tão estúpida, infundada. Me diz algo que seja mais próximo de adoçar o café se não o açúcar. Raspinha de limão, canela, leite...Mas com chantilly ninguém implica? Ai, porque profissionalmente não se adoça o café. Ai, porque faz mal para saúde. Não quero saber. 

Se você é do tipo evoluído que resiste aos docinhos, bebe seu suco no ponto de fazer careta e se vangloria com uma garrafa de vinho seco. Parabéns, porém, ninguém me tira da cabeça que você é um psicopata. Sou a dona da verdade? Não. Tenho embasamentos científicos em tudo que falo? Também não. Mas é isso, cada um lida com seus fracassos do jeito que pode. Eu mesma não tenho argumentos quando amigos me acusam de pagar um café superfaturado só pelo prazer de estar em uma cafeteria aconchegante.

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Lua Souza

Lua Souza, 34 anos, mãe e moradora de Franco da Rocha (SP). Poeta de nascença e professora de Língua Portuguesa, recentemente se descobriu cronista. Citação: "Eles passarão, eu passarinho"

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