Nessa última sexta-feira dia 21 de março eu tive a oportunidade de falar um pouco sobre o movimento hip-hop na Casa Afro Moratense desde já um abraço e um beijo no coração daqueles que me deram essa oportunidade, aqueles que me conhecem sabem das minhas influencia musicais, eu tive o prazer de sobreviver da música por alguns anos da minha vida porém em um seguimento diferente que era o samba, mas os ritmos se cruzam o tempo todo e isso fez com que eu jamais limitasse o meu gosto musical, eu nasci no Butantã e cresci parte da minha primeira infância na favela da San Remo localizada na zona oeste de São Paulo logo em seguida meus pais se mudaram para Franco da Rocha, locais perfeitos para entender as interpretações das letras de rap dos anos 90.
Ao falar sobre o movimento hip-hop temos sempre que fazer as conexões entre África, Jamaica, Estados Unidos e Brasil, sem isso o rap se torna apenas uma música, porém o rap é hip-hop, e o hip-hop é um movimento sociocultural. Ao falar da África temos que citar os Griots que eram contadores de histórias que desde a época do Império Mali no século XIV passavam suas tradições a outras gerações através de versos cantados ao som de tambores (muito parecido com o Rap hoje), com a colonização da Jamaica primeiro por espanhóis e depois por ingleses muitos africanos da região ocidental do continente passam a chegar a ilha caribenha para o trabalho escravo trazendo suas tradições e costumes como herança e como ato de resistência e esses costumes sobreviveram ao longo do tempo, Já nos anos de 1960 um movimento na Jamaica conhecido como sound-sistem passa ganhar força entre negros das periferias do país que estavam tomadas pela violência, os toasters que eram uma espécie de mestre de cerimônia com um microfone na mão passavam mensagens através de sistemas de sons (muito parecido com o que os Griots faziam) para os jovens que se divertiam em meio a tanto sofrimento. Com o fim da segunda guerra mundial os países envolvimentos no conflito sofreram muitas baixas em suas populações devido as mortes, e ao precisar de mão de obra para reconstrução da classe trabalhadora essas nações criaram leis de facilitação imigratória, os jamaicanos por conta do idioma decidiram imigrarem para EUA e Inglaterra em busca de emprego e consequentemente levaram suas tradições e costumes para esses lugares. Foi quando em 11 de agosto de 1973 na Avenida Sedwick, 1520, South Bronx, Nova Iorque local de extrema pobreza e violência, uma imigrante jamaicana amante de sound-sistem decide ao lado de seu irmão fazer uma festa para comemorar seu aniversário, Cindy Campbell e Clive Campbell conhecido como DJ kool Herc fizeram a primeira festa que ficou conhecida como o marco do surgimento do movimento Hip-Hop e ao se juntar com outro descendente de jamaicanos o lendário Dj, compositor e produtor Afrika Bambaataa formaram uma espécie de santíssima trindade do Hip-Hop.
A partir daí a cultura Hip-Hop passa a influenciar a sociedade em todos os seus 4 elementos o Grafiteiro, o B-Boy ou B-Girl, o DJ e o MC, as mensagens passadas através dos grafites influenciam diretamente as artes plásticas no geral com desenhos e frases que ajudam a manter uma ancestralidade viva, e ao falarmos da manifestação corporal através do breakdance com os b-boys e b-girls influenciando a dança de maneira geral e se tornando até mesmo esporte olímpico, sem falar dos DJ’s com a facilitação nas produções musicais de uma maneira geral, influenciando e despertando a curiosidade nos jovens através do sample, aquele trecho ou parte instrumental do beat que menciona alguma música clássica, a exemplo disso quando ouvimos a música “Homem na Estrada” do lendário grupo de rap Racionais MC’s imediatamente nos deparamos com a guitarra e até trechos da letra do Pai da Soul Music Brasileira Tim Maia na música “Ela Partiu” canção que foi feita em 1977 ou seja quase 20 anos antes de Homem na Estrada, tudo isso ajudando a conservar artistas negros que pavimentaram a estrada que o Hip-Hop trilha nos dias de hoje. Por último mas nem menos importante o MC e os grupos de rap com suas letras mostrando a realidade nua e crua daqueles que vivem a margem da sociedade, denunciando as injustiças sociais produzidas por um Estado que valoriza apenas aquilo que você tem colocando o povo negro e os mais pobres em campos de concentrações travestidos de favelas, letras como “Formula Mágica da Paz” Mano Brown diz o seguinte: “... essa p#@$ é um campo minado, quantas vezes eu pensei em me jogar daqui? Mas, ai minha área é tudo que eu tenho, a minha vida é aqui eu não consigo sair...” o cronista expõe a indignação daqueles que vivem nas periferias nunca por opção e sim por não terem pra onde ir e nem conseguir sair de tal situação, contrariando o que a mídia a todo tempo tenta fazer ao romantizar e até trazer uma glamourização para a imagem da periferia que se pararmos para analisar a construção da sociedade aqui no Brasil as periferias nem deveriam existir elas são o atestado de fracasso do Estado Democrático de Direito desse país, quando Edi Rock começa a introdução do disco Raio-X do Brasil do grupo Racionais MC’s dizendo: “...1993, fudidamente voltando, Racionais, usando e abusando da nossa liberdade de expressão, um dos poucos direitos que o jovem negro ainda tem nesse país...” o artista passa a sensação de que foram 400 anos de escravidão no Brasil mais alguns anos desde a Constituição de 1988 e a única conquista do jovem negro de periferia foi a oratória de poder falar o que pensa e hoje com a polarização que o mundo vive vemos um viés político partidário que muitas vezes diz ser a favor dos negros querendo mexer diretamente na liberdade de expressão, letras como essa não nos deixam esquecer da até então única conquista e nem permite que o povo da periferia caia em ciladas que o Estado a todo momento tenta armar para aqueles que estão dentro de uma vulnerabilidade socioeconômica.
O Hip-Hop talvez tenha sido o mecanismo que mais chegou perto de fato da liberdade que o povo negro pede, ele educou, conscientizou e trouxe auto estima principalmente para o jovem negro, pois um homem ou uma mulher negra mais velhos e experientes já tinha de certo modo mostrado para a sociedade o seu valor ao sobreviver a violência, o alcoolismo, as drogas, por outro lado o jovem negro ele estava sempre sem voz pois ele ainda tinha toda uma vida para provar a sociedade que merecia seu espaço, o Hip-Hop antecipou isso trazendo conhecimento até mesmo político mostrando para o jovem negro que ele pode sim opinar e fazer suas escolhas com consciência, sem contar a maneira que o jovem pode empreender e fazer dinheiro mudando a sua realidade e alcançando até mesmo outras vidas, o Hip-Hop modificou muito a vida de todos no planeta, é uma cultura que deve ser lembrada o tempo inteiro que veio para contestar, mudar e melhorar a vida de todos que estão ao seu redor, ele veio para além do entretenimento, VIVA O HIP-HOP, VIVA A LIBERDADE DE EXPRESSÃO.
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