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Sexta-feira, 15 de Maio de 2026
O que é adultização e por que precisamos falar sobre isso

Dani Almeida

O que é adultização e por que precisamos falar sobre isso

A exposição precoce de crianças e adolescentes nas redes levanta um alerta sobre os limites entre diversão e exploração.

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Você já teve a sensação de que as crianças hoje parecem crescer rápido demais? Que falam, se vestem e se comportam como adultos, mesmo ainda sendo pequenas? Isso tem um nome: adultização. É o processo de expor crianças e adolescentes a experiências, responsabilidades e padrões da vida adulta antes de estarem emocionalmente prontos para isso.

Essa exposição pode acontecer de várias formas. Está nas roupas e maquiagens que imitam o estilo adulto, nos programas e músicas voltados para um público mais velho, nas cobranças por comportamento “maduro” e até nas tarefas que substituem o tempo de brincar. A criança passa a ser vista como alguém que precisa se comportar, produzir e se destacar, e não simplesmente viver a infância.

O fenômeno não é novo. Desde os anos 1990, práticas de adultização já eram alvo de críticas, das coreografias “lúdicas” exibidas em programas de TV à erotização de meninas em campanhas publicitárias. O que mudou foi a escala: com a internet, a exposição se tornou constante, pública e monetizável.

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Nas redes sociais, o fenômeno ganha força. É a criança que passa horas tentando gravar o vídeo “perfeito”, o menino com uma agenda cheia de publicidade, a menina que posa como influenciadora. Mas também é a que escuta frases como “precisa agir como uma mocinha” ou “homem não chora”. A adultização começa quando deixamos de enxergar a criança como criança.

E as consequências disso são sérias. Quando o valor de uma criança passa a ser medido pela aparência, desempenho ou aceitação dos outros, surgem insegurança, ansiedade e medo de errar. Ela aprende cedo a esconder fragilidades e a se preocupar com julgamentos, o que pode comprometer sua autoestima e seu desenvolvimento emocional. Em muitos casos, há também erotização precoce, quando o corpo infantil passa a ser sexualizado, um risco grave que aumenta a vulnerabilidade diante de abusos e exposição.

De acordo com dados da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), 88% dos jovens de 9 a 17 anos já têm perfis em redes sociais. Essa hiperexposição acelera comportamentos e estéticas adultas, antes que a criança esteja emocionalmente preparada. O mesmo estudo aponta que esse nível de exposição aumenta os riscos de ansiedade, depressão, baixa autoestima e confusão de identidade.

Nos últimos meses, o tema voltou com força às redes sociais após denúncias sobre perfis e conteúdos que exploram menores de idade. As publicações geraram indignação e reacenderam o debate sobre controle parental e segurança online.

Recentemente, o youtuber Felca denunciou situações de exploração infantil na internet e levantou discussões sobre o papel dos adultos. Muitos pais não têm más intenções e enxergam a exposição como brincadeira ou oportunidade de mostrar talentos. Mas a linha entre incentivo e pressão é muito fina. Quando a rotina da criança muda, o descanso desaparece ou o desconforto aparece, o limite já foi ultrapassado.

A repercussão foi tão grande que a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 2628/2022, que cria regras para proteger crianças e adolescentes em ambientes digitais. O texto obriga plataformas a oferecerem controle parental, verificar idade com mais rigor e garantir transparência no uso de dados. O projeto agora segue para análise no Senado.

Leis de proteção e dever das plataformas

No Brasil, há leis específicas que garantem a proteção da infância. O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) assegura a dignidade e proíbe qualquer forma de exploração. O CONAR veda a erotização e a criação de estereótipos prejudiciais em propagandas. Já a CLT permite o trabalho artístico infantil apenas com autorização judicial e acompanhamento. Esses princípios também deveriam valer para o ambiente digital, onde a linha entre entretenimento e exposição se torna cada vez mais tênue.

Com a repercussão do tema, o Instagram anunciou novas regras para proteger adolescentes. As contas desse público passarão a seguir o modelo PG-13, usado nas classificações indicativas do cinema. O conteúdo será filtrado para se adequar a faixas etárias a partir dos 13 anos. Usuários menores de 18 serão automaticamente incluídos nesse modo e só poderão sair dele com autorização dos pais. A plataforma também lançará a opção Limited Content, que bloqueia publicações com linguagem imprópria, desafios perigosos e temas sensíveis.

A Meta, empresa responsável pelo Instagram, afirma que o novo sistema foi construído com base em mais de 3 milhões de avaliações de pais de diferentes países, que analisaram postagens reais e opinaram sobre o que seria apropriado para adolescentes. Segundo a empresa, menos de 2% das publicações revisadas foram consideradas inadequadas pela maioria dos pais.

Além disso, o aplicativo vai impedir que adolescentes sigam contas com conteúdo impróprio e bloquear buscas por termos sensíveis, como “álcool” ou “violência”. As atualizações começam nos Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e Canadá, e devem chegar a outros países até o fim do ano.

No mundo conectado de hoje, cada vídeo, foto e interação ajuda a moldar a visão que uma criança tem de si mesma e do mundo. Por isso, a supervisão parental é indispensável. Cuidar agora é mais eficaz e menos doloroso do que tentar reparar os impactos de uma exposição precoce no futuro.

A infância não precisa de palco nem de plateia. Precisa de espaço para brincar, descobrir e errar, coisas simples que formam a base de quem seremos depois.

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Dani Almeida

Publicado por:

Dani Almeida

Jornalista e estudou Ciências Sociais na UNIFESP. Escreve sobre comunicação, cultura pop, especialmente a asiática, além de entretenimento, esportes e sociedade.

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