Nascido no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, em 1839, Machado de Assis era neto de escravizados, pelo lado paterno, e filho de uma mulher portuguesa, natural da ilha de São Miguel, nos Açores. Sua origem sintetiza a própria formação brasileira, marcada pelo encontro entre pessoas negras e brancas — o que o configura, em termos contemporâneos, como um homem negro, mais especificamente pardo.
Machado não frequentou a universidade e teve uma passagem limitada pela escola formal. Entretanto, foi através de uma educação informal que conseguiu ascender e ocupar um lugar único no centro da produção literária brasileira. Uma de suas primeiras atuações foi no jornalismo, espaço em que passou a publicar poemas e contos. Sua estreia nas letras ocorreu em A Marmota Fluminense, em 12 de janeiro de 1855, publicação que inaugurou uma trajetória decisiva para a literatura.
Um exemplo disso é como o autor teve acesso ao ensino de línguas. No século XIX, o francês era a língua fundamental para o acesso à literatura estrangeira, e Machado decidiu aprendê-lo com um padeiro do Rio de Janeiro — um professor imigrante e improvável. O episódio evidencia a astúcia do autor que, mesmo vindo de condições limitadas, soube mobilizar todos os recursos disponíveis — e até improváveis — para se formar intelectualmente. A partir daí, passou também a explorar a língua inglesa, então marginal no Brasil, com o auxílio de José de Alencar, ampliando e inovando o repertório de referências presentes em sua obra.
O crítico Roberto Schwarz, ao defini-lo como um “mestre na periferia do capitalismo”, aponta que a genialidade de Machado reside não apenas em seu contato com a literatura universal – isto é, europeia –, mas também em sua leitura atenta e crítica da produção nacional. A partir desse duplo movimento, o autor construiu uma obra profundamente original. Em termos de teoria literária, isso dialoga com a noção de sistema literário, em que todo escritor é, antes de tudo, um grande leitor e um grande estudioso da literatura.
Nesse sentido, o que mais impressiona em Machado de Assis são os inúmeros obstáculos que precisou enfrentar para inscrever seu nome na história literária brasileira. A partir do lugar social que ocupava, desenvolveu uma visão aguda e abrangente do mundo que desejava retratar, resultando em um conjunto artístico de extraordinária complexidade e permanência, com diversas referências e inovações. Foi a partir da periferia do capitalismo — social, racial e cultural — que Machado de Assis elaborou uma literatura capaz de ler o país com precisão histórica e sofisticação estética, tornando-se um de seus maiores mestres.
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