Este fim de semana foi especial para a arte brasileira, mas a alegria de termos uma atriz do país indicada ao Oscar de Melhor Atriz, competindo com a potência estadunidense que monopoliza a produção audiovisual mundial, ficou polarizada. Valorizar nossos artistas parece ser uma espécie de crime para alguns.
Fernanda merecia o Oscar — não apenas pela nossa alegria, nem para “vingar” o Oscar perdido de sua mãe, mas porque tem uma longa carreira de atuações versáteis, cativantes e excepcionais. Ainda assim, o debate não ficou apenas na celebração. O Brasil parece ter desenvolvido uma habilidade curiosa: transformar conquistas culturais em campos de batalha ideológicos.
Nosso cinema, historicamente, nunca teve vida fácil. Das dificuldades de financiamento à desvalorização constante, há sempre um esforço coletivo para provar que a nossa produção audiovisual vale a pena. E, ainda assim, cada reconhecimento internacional traz junto uma enxurrada de comentários como "com dinheiro público até eu" ou "nem vou assistir, o cinema brasileiro só faz filme ruim".
Curioso que a mesma crítica não acontece quando assistimos a um drama francês, a um romance coreano ou a um blockbuster estadunidense financiado por incentivos fiscais. Parece que a perturbação não está no uso do recurso, mas no fato de ser nosso. Como se a cultura fosse um privilégio, e não uma expressão legítima da nossa identidade.
A desvalorização do cinema nacional não é apenas uma questão de gosto, é uma estratégia. Reduzir a importância da cultura é reduzir a importância do pensamento crítico. Diminuir a arte é diminuir a identidade de um povo. E o Brasil tem sido mestre nessa autoflagelação. O mesmo país que vibra quando um filme brasileiro é indicado ao Oscar demoniza o financiamento de produções audiovisuais e diz que artista tem que “trabalhar de verdade”. O mesmo povo que se emociona ao ver uma Fernanda Montenegro ou uma Fernanda Torres brilhando lá fora compra discursos de que nossos artistas são “parasitas da Lei Rouanet” e que nossa cultura “não presta”.
A polarização transformou a cultura em inimiga, e isso não é por acaso. Uma população que não consome sua própria arte não se reconhece. Quem não se vê representado em telas, livros e palcos se desconecta da própria história. A cultura sempre foi um espaço de questionamento, reflexão e, acima de tudo, identidade — e é justamente isso que incomoda tanto.
Fernanda não levou o Oscar, mas nos lembrou da importância de estar ali. Nosso filme venceu, mas a sensação é que ainda precisamos reafirmar, dia após dia, que nossa arte tem valor. No fim das contas, a pergunta que fica é: quando vamos parar de tratar a cultura como inimiga e reconhecê-la como parte essencial de quem somos?
Porque arte não é capricho, favor ou desperdício. Arte é memória, resistência, identidade. E um país que não valoriza sua própria cultura é um país que, aos poucos, se esquece de si mesmo.
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